Download: Ao Vivo, André Takeda

Foto: André Takeda

Nota do Autor
Um disco ao vivo raramente é um disco de material inédito. É por isso que decidi batizar este livro de AO VIVO. Sei que, à primeira vista, parece ser uma brincadeira pretensiosa. Mas, na verdade, é apenas uma forma divertida de reunir algumas das narrativas curtas que escrevi de 1999 a 2002, tendo sempre como títulos canções de músicas. Essas “soundtracks”, como costumava chamar estes textos, foram publicados em diversos sites na internet e, hoje, já não estão mais disponíveis. Reunir todas elas em um livro é uma boa desculpa para apresentar um pouco do meu passado, mesmo que isso prove que o passado e o presente não são tão diferentes assim. Este AO VIVO também tem a sua faixa-bônus: o último texto foi escrito no início de 2006 para o jornal Zero Hora. Espero que você goste. E, não esqueça, leia no volume máximo.

André Takeda (@andretakeda)

Nota do Editor
Um dos primeiros textos publicados no Scream & Yell em 2000, a série “Um Adolescente nos Anos 80”, subtítulo deste AO VIVO (que ainda traz outras trilhas sonoras), de André Takeda, ainda continua no ar e, sazonalmente, chama a atenção de um leitor aqui, outro acolá, que repassa o link para o amigo, que mostra para a namorada, que envia um e-mail para o irmão e a corrente segue infinita. Eu já tinha ideia de republicar a série toda, que começou a ser publicada no 1999 (um dos primeiros grandes sites de cultura pop deste país), ganhou novas páginas que se perderam nas esquinas sem história da web. Desta forma, este AO VIVO realiza um desejo pessoal. O arquivo em PDF segue para download logo abaixo, mas para aqueles que não conhecem as soundtracks, separei três histórias. Leia no volume máximo.

Marcelo Costa (@screamyell)

Download: AO VIVO, de André Takeda (PDF) – Baixe aqui (botão direito e salvar como)

http://reader.googleusercontent.com/reader/embediframe?src=http://www.youtube.com/v/hTebzorfdLs&width=600&height=340

This Time

Quando me perguntaram por que diabos eu estava indo para Londres em pleno Carnaval, respondi que, além de fugir das praias, sol, samba, axé, Marquês da Sapucaí, caipirinhas, Globeleza, estava em busca de uma inglesa sem marcas de biquíni, transparente de tão branca, com os cabelos pretos e curtos, e com aquele estilo tipicamente rock and roll que sempre procurei em uma mulher. São quase dez horas da noite em um pub qualquer no So- Ho, está um frio daqueles, já estou no meu sexto copo de Guinness, e, talvez seja o efeito do álcool, mas juro que encontrei quem estava procurando. Das caixas de som, surgem os primeiros acordes de “This Time” do Suede e ela começa a dançar com uma sensualidade nada britânica. Acendo um cigarro, penso que é falta de educação ficar olhando fixamente para alguém, mas não posso evitar. Ela movimenta o seu corpo todo coberto de roupas pretas, os sapatos masculinos acompanham o compasso da música, as mãos desenham círculos imaginários no ar, e isto é muito mais bonito do que qualquer rebolado. Foda-se o samba. Na segunda vez que Brett Anderson canta “this time is yours and mine”, eu me aproximo e digo “Hi”. Ela responde “Hello”. Tento organizar os meus pensamentos para perguntar alguma coisa decente sem tropeçar no inglês. Mas estou muito nervoso. Nervoso demais para agir sem parecer um idiota. Fico em silêncio a sua frente, enquanto ela dança como se a minha presença não a afetasse. De repente, ela aproxima o seu rosto do meu e fala “Don’t you love Suede?”. Afirmo movimentando a cabeça. Agora, Brett Anderson jorra pelo som “This scene is you and me”, e ela acompanha com a sua voz desafinada, e não posso mais aguentar, seguro o seu pulso. Ela pára de dançar e olha para mim. Sinto em minha mão direita um tecido familiar. Meu Deus: é uma fitinha do Nosso Senhor do Bom Fim. Eu quase tenho um ataque cardíaco aqui mesmo no pub, apago o cigarro e falo “Are you Brazilian?”. “Yes”, ela diz. “Bahia?”, eu pergunto. Ela olha para a fitinha amarrada no pulso e responde “No…. São Paulo, this was a gift”. Veja como são as coisas: atravesso o oceano em busca da mulher perfeita, e ela sempre esteve no mesmo continente que eu. Começo a rir sem parar e, desta vez, sou eu quem coloca o rosto perto do dela e digo “Você tem marcas de biquíni?”. Ela ri. “Há dez anos que não vou à praia”, diz. Por um milésimo de segundo, nós olhamos um para o outro e voltamos a dançar. “We’re the lazy sons, we’re the only ones”, Brett Anderson profetiza antes do maravilhoso fraseado de guitarra final, e, novamente, penso “Foda-se o samba”. É isso mesmo: foda-se o samba.

Você encontra “This Time” no álbum “Sci-Fi Lullabies”

http://reader.googleusercontent.com/reader/embediframe?src=http://www.youtube.com/v/7CAYFIpi89k&width=600&height=340

“How to Fight Loneliness”

Você não me pergunta como quero os meus ovos, e mesmo assim diz que vai me deixar esta manhã. Observo com calma os seus movimentos pela cozinha. Acender o fogão. Abrir os armários. Checar se a geladeira está bem fechada. Passar a manteiga sobre as torradas. Tento decorar cada pedaço desta cozinha. Como se montasse um álbum de fotografias particular. Sei que não voltarei mais aqui. E me consola o fato de que pelo menos um de nós dois está satisfeito com isso. Ainda em silêncio você coloca a mesa. Enche a minha xícara com café preto sem esperar que eu diga quando parar. Imagino se um dia você irá esquecer tudo isso. Penso em convidá-la a escrever um manual de instruções para me acompanhar daqui para frente. E os ovos. Sim, os ovos. Não adianta dizer que estão ótimos porque o momento não é para elogios. O que me resta é mastigá-los com força. Colocando entre os meus dentes toda a minha desilusão travestida de raiva. Enquanto isso você bebe o seu chá. Sem coragem de olhar para mim. Com a vergonha amarela de quem não sabe perdoar. Com dificuldades para engolir o que sente. Cuidado. Você ainda vai se engasgar com tanto orgulho.

Você encontra “How to Fight Loneliness” no álbum “Summerteeth”.

http://reader.googleusercontent.com/reader/embediframe?src=http://www.youtube.com/v/01iCyBaZnPU&width=600&height=340

“One Too Many Mornings”

Bem-vindo à vida adulta, diz Pedro enquanto estaciona seu carro à frente do prédio que em algum dia da década de 50 já fora amarelo. Pergunto por que diabos estes lugares são sempre antigos, com este jeito decadente e burocrático que tanto me deprime. Ele balança a cabeça, como se quisesse dizer não sei, e fala que ainda temos tempo para um café, um refrigerante, qualquer coisa que acompanhe bem um cigarro. Falando nisso, acrescenta, está na hora de você pensar em parar de fumar. Sim, eu sei disso, digo, e saímos do carro e caminhamos pelas ruas movimentadas, sujas e confusas do centro da cidade. Mas, para a minha surpresa, vemos uma loja de discos de vinil. Parece que o lugar fora preservado pelo tempo, se fechar os olhos, posso imaginar que tenho 15 anos novamente. Sinto um cheiro familiar, uma mistura de plástico e papel novo. Vamos entrar, falo para Pedro, o cigarro pode ficar para depois. Ele sorri e pede para eu não me empolgar, afinal, sabe como ajo quando estou dentro de uma loja de discos. Retribuo o sorriso e digo se perder a hora, tem alguém lá em casa que me mata. Como se fosse reflexo condicionado, procuro com os olhos a prateleira com as novidades, mas então lembro que não estou em uma loja de discos qualquer. Penso se meu filho irá herdar de mim a paixão e o vício pela música, e se ele também irá sofrer com a mudança de formatos. Lembro a Pedro o quanto foi traumatizante quando os CDs começaram a substituir os vinis, e como relutei para aderir à nova mídia. Provavelmente o meu filho irá crescer em um mundo sem álbuns, um mundo feito de canções isoladas em formatos que começam com ponto alguma coisa, falo enquanto reviro a seção dedicada ao Bob Dylan, o que é uma pena, continuo, afinal um bom álbum é como um bom livro, um bom filme, tem começo, meio e fim, tem uma história para contar. Pedro ri e diz que não irá achar estranho se eu cantar todo Highway 61 Revisited para o meu filho dormir em vez de ler contos de fada. E as suas palavras fazem surgir uma idéia dentro de mim. Mais do que isso, uma sensação de que as coisas, ao contrário do que pensava, não mudaram tanto assim nos últimos três dias. Sim, Pedro, digo, talvez a vida adulta esteja começando definitivamente agora, mas quem sabe eu possa deixar que a minha juventude dure para sempre. Então, tiro o telefone celular do bolso e saio da loja. Ela pergunta se a papelada já está pronta. Respondo que ainda não, que houve mudanças de planos, que precisamos conversar. Bruxa como ela é, adivinha o assunto e diz que o assunto já está decidido e que não quer mais discussão. Por favor, falo, só ouça o que tenho a dizer. Silêncio do outro lado da linha. Ela me dá sinal verde e eu falo que nosso filho tem que ser realmente fruto do que somos, não apenas de nosso amor e compromisso, mas da bagagem que carregamos conosco, com os nossos erros e acertos. E o que isso tem a ver com o nome da criança, ela quer saber. O nome dele, explico, tem que ser algo que as pessoas digam nossa, só poderia ser filho deles mesmo. Ela pede para eu falar logo o nome que escolhi. Dylan, revelo. Dylan, ela indaga. Dylan, repito. Hurricane, ela diz. One too many mornings, digo. Enfim, posso sentir que ela está sorrindo ao telefone. Desligamos e eu falo para Pedro esquece o café, o refrigerante, esquece tudo e vamos voltar para o cartório.

Você encontra “One Too Many Mornings” no álbum “The Times They’re Changing”.

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André Takeda é autor dos livros “O Clube dos Corações Solitários” (2001), “Cassino Hotel” (2004) e “A Menina do Castelinho de Jóias” (2011). É colaborador de primeira hora do Scream & Yell e assina atualmente o Tumblr Eu Quero Ser Amigo além de publicar suas fotografias no http://www.flickr.com/photos/andretakeda/

from SCREAM & YELL 2.0 http://screamyell.com.br/site/2011/11/14/download-ao-vivo-andre-takeda/

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