Fotografia marginal | O mundo é sortido, senhor

Ainda neste ano, editei uma matéria sobre o fotógrafo Thiago Fogolin para a Revista OffLine. Estudante de Design Gráfico da Belas Artes, em maio de 2009, Fogolin emprestou um verso de Manoel de Barros para título de seu TCC: “O mundo é sortido, senhor” – um livro de fotografias de 120 páginas, sobre os moradores de rua que conheceu em andanças pelo Vale do Anhangabaú e imediações da Grande São Paulo.

Excelente fotógrafo é este que captura momentos invisíveis e Thiago, hoje, já tem um acervo fotográfico de mais de 3 mil retratos tirados nas ruas. A IdeaFixa convidou Thiago Fogolin para uma seleção das melhores fotos dessa série, acompanhadas por comentários do fotógrafo sobre as lembranças daqueles dias e dos grandes amigos que fez na rua:

::O VENDEDOR DE FLORES:: “Conheço este homem desde pequeno, pois sempre o vejo. Ele vende flores pelo centro da cidade e sempre que me vê grita: Salamaleico! Maleicosalam! Thiaguinho, sumiu! Para ele, eu pedi a foto, e ele respondeu com essa cara de sério. Mas ele é bonzinho, e eu respondo Salamaleico para ele também”.

::MULHER LAMBENDO O CHÃO:: “Eu estava na Sé, andando com a câmera e vi essa mulher lambendo o chão. Uns pastores pregando ali perto estavam dizendo que o Diabo estava possuindo o corpo dela. Comecei a fotografar, então parei e me abaixei. Fiquei ajoelhado olhando para ela, há uns 5 metros de distância. Ela veio rastejando e lambendo o chão até perto de mim, levantou, encostou a cabeça em mim, e deu um suspiro”.

::SEU NOGUEIRA:: “O homem com as flores é o Seu Nogueira. Eu já o conhecia pois tenho um amigo que sempre dá roupas para ele. Ele está em todas manifestações da Paulista, meio que sem querer. Essa era a Marcha para a Liberdade, e estavam dando flores na manifestação. Encontrei ele parado ali no meio, só assim, sem pose alguma, oferecendo flores pra ninguém”.

::MÃOS NO ROSTO:: “Não lembro muito bem como, mas foi um dos dias em que eu paro em algum lugar e essas pessoas começam a chegar perto de mim pra conversar. Esse foi um deles, mas ele chegou perto demais e não estava muito em condições de falar nesse dia. Nessa foto, às vezes parece que ele chora, às vezes que só coça os olhos”.

::XUXA:: “Essa é uma senhora que diz que está na rua porque alguém fez um trabalho pra ela. Ela foi cabeleireira. Todos os dias ela monta uma ‘casinha’ de papelão para dormir e, neste dedo dela, não é um anel, mas um saco plástico que escondia um machucado. O nome dela é Xuxa”.

::DEITADO NA PORTA DA IGREJA:: “Foi em Boracéia. Eu estava procurando uma aldeia indígena que tem por lá para fotografar, quando vi esse cara na porta de uma igrejinha. Ele disse algo do tipo “eu bebo mesmo, Deus!” quando me viu…”

::LINDA:: “Ela sempre está pelo Paraíso e região. Veio me pedir um cigarro, mas não fala nada com nada. Daí viu a câmera e se assustou. Então puxei a mão dela, beijei e disse que ela era linda. Aí ela sorriu. Foi a única vez que vi ela sorrindo”.

::POPEYE:: “Esse velhinho já encontrei em vários lugares diferentes da cidade. Ele gosta de imitar o Popeye com essa cara, mas quando não faz essa careta parece um senhorzinho normal. Uma vez ele estava causando no bar, na frente da Belas Artes, e eu discuti com ele. Quando a coisa engrossou, ele chegou perto de mim e tentou me beijar na boca.”

::NEGÃO:: “Eu chamo ele de Negão. Ele me chama de pai. Diz que é cigano, que lê mão. Já leu minha mão e disse que eu era ‘guerreiro, trabalhadeiro’ e também perguntou sobre meu signo (Gêmeos). Ele adora cantar Alcione e, nessa hora, pra variar, estava cantando uma música dela para mim”.

::PALHAÇO PARAFUSO:: “Ele era palhaço, o Palhaço Parafuso. Arrumou algum rolo com o governo de impostos atrasados e acabou preso por isso, na época da Ditadura. Ele diz que resolveu ir para a rua porque era mais fácil, para evitar burocracia”.

::DANÇARINA:: “No centro, tem várias bandas que se apresentam para o povo, pra vender CDs, etc. Essa mulher é meio conhecida por lá. Estava no meio da roda dançando e rebolando música sertaneja para a galera. Chamava alguém da plateia pra dançar com ela”.

::SEU ALMIR:: “Almir é de Almirante. Convidei ele para sentar na minha mesa num bar, e ele pediu um Toddy e um salgado. Ele disse que queria isso porque era “gostoso e crocante”. Daí me disse: “Eu lutei na guerra, sabe? Guerra Mundial!”. E eu perguntei: “A primeira ou a segunda?”. Ele disse: “Foi uma só…”

::O QUARTETO:: “Esta foto marca o dia em que fui ‘aceito’ nessa turma. Me deram um pouco dessa cachaça que estava na garrafa de coca-cola. Um deles diz que lutou no Iraque e outro me pediu para dar para ele o livro do Shakespeare, que tinha o personagem Iago. Era o Otelo e ele me cobra às vezes quando o encontro”.

::ARNALDO:: “Ele tem RG e a comanda de atendimento do Albergue onde dormia. Na comanda estava escrito em letras garrafais: ATENDIMENTO DE SEGUNDA À SEXTA, DAS 13H ÀS 16H. CORTE DE CABELO = 7 LATINHAS. ROUPA (2 PEÇAS) = 5 LATINHAS. BANHO = 2 LATINHAS. NA PERDA DO CRACHÁ = 25 LATINHAS. DEUS ABENÇOE”

::FOTO EM FAMÍLIA:: “Em frente ao Edifício São Vito (o Treme-treme), foi uma foto solicitada. Foram eles que me pediram para tirar uma ‘foto de família’ com o cachorro.”

::EXPRESSÃO:: “Foi no Revelando São Paulo, na Água Branca. Eu e ele não falamos nada além de oi e coisa do tipo. Mas ele pegou uma vuvuzela e ficou tocando. E mesmo com ela nas mãos pra tocar, não perdia a expressão nos olhos. Eu gosto das expressões dele”.

::MAIS OU MENOS:: “Esse cara estava sentado no chão e fui falar com ele. Tudo que eu perguntava, ele respondia “mais ou menos”. O senhor bebeu? Mais ou menos. Essa cicatriz do olho está inflamada? Mais ou menos”.

::OLHOS CLAROS:: “Uma menina que me parou pra pedir um cigarro. Eu pedi uma foto. Mas apenas acho que era uma menina, ainda não sei. Algumas meninas na rua se vestem como homens, prendem o seio com um pano, porque é mais perigoso ser uma menina que um moleque na rua”.

A história de Thiago Fogolin é curiosa, pois ele estava totalmente estagnado no curso de Design Gráfico quando começou a fotografar mendigos. Às vezes, a gente acha que sabe para o que tem talento, mas acaba descobrindo que nasceu mesmo foi para outra coisa. Num dia qualquer de 2008, Thiago resolveu pintar uma tela a partir de certa foto que havia tirado de um senhorzinho na rua. Por qualquer motivo, na mesma semana, cruzou com o personagem de seu quadro na rua, dançando bêbado e cantando. Seu nome era Sinval Medeiros, um morador de rua que acabou se tornando artista plástico e teve trabalhos expostos no metrô e no Memorial da América Latina.

Mas até o encontro desses dois artistas, nenhum deles sabia que estavam com papeis trocados: pintar quadros era tarefa para Sinval e as ruas, tarefa para Thiago Fogolin. Resumidamente, é isso que me encanta nessa história. Fecho aqui com a transcrição do poema “O Aferidor” de Manoel de Barros, do qual o fotógrafo extraiu o nome de seu livro. Porque não sou eu que amo poesia, mas a poesia que ama o trabalho do Thiago:

“Tenho um aferidor de Encantamentos
A uma açucena encostada no rosto de uma criança
O meu Aferidor deu nota dez
A uma fuga de Bach que vi nos olhos de uma criatura
O Aferidor deu nota vinte
Mas a um homem sozinho no fim de uma estrada
Sentado nas pedras de suas próprias ruínas
O meu Aferidor deu DESENCANTO
(O mundo é sortido, Senhor, como dizia meu pai)”

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