Libertas quae sera tamen um mala


Funciona mais ou menos assim. Você tem algo a dizer, então cria um espaço para se expressar. Se o seu discurso for pertinente, em algum momento, alguém vai ler. Se tiver algum mérito no que você publicou, alguém vai voltar, trazendo mais alguém. E assim por diante.
Criar um blog não é um processo complicado. Tanto que houve uma época em que todo mundo tinha o seu – mais ou menos como na época do Tamagotchi. Eu mesma tive alguns. Blogs e Tamagotchis. Os Tamagotchis, eu matei todos. Uma coisa impressionante. Eu era a genocida dos bichinhos eletrônicos japoneses. Eu era a Nataliazilla. A coisa era tão séria que foi ali mesmo que eu percebi que não tinha talento nenhum para ser mãe.
Já os meus blogs sobreviveram por mais tempo. Tive três. O primeiro era meu xodó cor-de-rosa e se chamava “As Aventuras de Charlote”. Era uma fantasia em cima da vida real, que girava em torno da volta de alguém (sim, sempre envolve alguém), a quem eu chamava de Ulisses. Ainda volto com essa história. Especialmente agora que misturar fantasia e realidade tá super in. Costumo ser a precursora anônima de projetos bem sucedidos dos outros, mas deixo isso para outro post.
Meu segundo blog já não era mais cor-de-rosa. Eram textos obscuros e nada divertidos. Nunca divulguei e, felizmente, não ficou conhecido. Nem lembro o que fiz com ele. Acho que fechei. Ou ficou para o mundo, além do meu controle.
Então veio o Adorável Psicose. Comecei do mesmo jeito que comecei os outros e do mesmo modo que todo mundo começa o seu blog. As ferramentas estão disponíveis para todos, a internet é pura democracia. O que fazer com essa voz, aí sim não é para todos.
O problema dessa liberdade cibernética é que ela funciona como um microfone ao fim da palestra. De posse desse microfone, o público não apenas se vê no direito de acrescentar algo pertinente. Ele se sente no dever de falar absolutamente qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. E não tem exemplo melhor do que o campo dos comentários. Não me levem a mal, sempre me orgulhei de dizer que os leitores desse blog costumam trazer boas contribuições. Aliás, eu conheço por nome alguns de vocês, que me visitam desde os primórdios de Adorável Psicose.
Mas com a chegada da série de TV, a coisa desandou. Alguns comentários que venho recebendo por aqui são a prova de que a liberdade de expressão jamais deveria ser dada aos que não têm nada para expressar. Porque na evidente falta de algo consistente para dizer, a opção mais fácil é atacar. O que, para mim, não faz sentido nenhum, porque ninguém é obrigado a ler esse blog. Aliás, para chegar até aqui, a pessoa precisa realizar o mínimo – porém relevante – esforço de digitar um endereço na barra do navegador. E dar enter.
E aí chegamos ao ponto crucial dessa questão. Algumas pessoas são capazes de usar as ferramentas da democracia virtual e, de fato, construir alguma coisa. Outras, no auge do desespero por um pouquinho de voz, grudam como carrapatos nas costas dos que realmente criam, chupam seu sangue e depois reclamam que estava muito ralo, muito amargo, muito doce.
A eles, eu lembro: liberdade de expressão é um privilégio, não uma desculpa para fazer do mundo sua lixeira particular. Quando sentir aquela vontade tecer um comentário, lembre-se de dar uma passadinha no banheiro antes. De repente, você já se resolve por lá.

from Adorável Psicose http://www.adoravelpsicose.com.br/2012/04/libertas-quae-sera-tamen-um-mala.html

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