Tédio, histeria e suicídio | Id #3

Ter motivo para viver. Algo que para algumas pessoas é automático e não exige esforço algum, para outras pode ser literalmente a busca de uma vida.

Sobre isso, recebi o tocante relato abaixo.

Sr Fred Mattos,

Não sei ao certo por onde começar, muito menos se deveria começar, e meu intuito aqui não é pedir nenhum tipo de apoio profissional – já tenho uma excelente psicóloga e um excelente psiquiatra me acompanhando – mas gostaria de entender um pouco mais no aspecto clinico e mental questões que levam as pessoas a simplesmente perderem o prazer da vida.

Eu não tenho o que reclamar da vida. Tenho um excelente emprego, cobiçado por muitos, e um salário interessante para meus poucos 20 anos. Da mesma forma que não posso me queixar de minha profissão, não posso me queixar do meu ciclo de amizades; me dou muito bem com todas as pessoas que convivo e que venho a conviver, meu ciclo de relacionamentos é bem amplo, tanto com homens quanto mulheres, repleto de grandes amigos e conhecidos que servem para sair final de semana e pegar uma balada. Sem deixar de lado é claro a família, onde meu relacionamento nunca esteve tão bom quanto hoje. Apesar de não ser um “don juan” não tenho problemas em conseguir um encontro ou algo um pouco mais sério, é mais questão de vontade.

Deixando os rodeios de lado, a questão é: mesmo tendo tudo, nada me satisfaz. Nem as mulheres, nem os amigos, muitos menos trabalho e família, sempre falta algo a mais, nunca é suficiente.

Seria pela facilidade como obtenho as coisas? Bom, não sei, o que sei é que sempre consigo as coisas com muita facilidade, com o mínimo ou nenhum tipo de esforço. Teria eu a bunda virada para a lua?

Partindo da questão de não se saciar com absolutamente nada, surge o pior dos pensamentos. Se não estou satisfeito com nada e não pretendo mudar – não tenho a minima vontade, afinal, mesmo estagnado tudo conspira ao meu favor –, então para que continuar? Sim, eu falo da vida, da morte.

Por que não escolher você mesmo seu horário e local de morte? Porque este é um tabu tão grande para a sociedade? Por que devemos viver até ficarmos velhos e gagás? A morte vem para todos, mas mesmo assim ela ainda choca, destrói, causa medo e pavor, principalmente quando se é alguém novo. Não posso deixar de concordar que com apenas 20 anos não vi absolutamente nada da vida, e mesmo que viva por mais 20, 40, 60, 80 anos, pouco verei.

Resumidamente, a curiosidade é entender como muitos imploram pela vida e para outros – conscientemente, ou estes tipos de pensamentos não são conscientes? – ela simplesmente não tem mais motivo algum para ser vivida.

Tenho 20 anos, solteiro, estou em terapia com psicóloga por mais ou menos três anos, com acompanhamento por psiquiatra a mais de um ano – este há seis meses e os outros três por curtos períodos – tomo remédios controlados e já me acostumei com esses pensamentos de morte e suicídio. Para dizer a verdade, fazem parte de meu cotidiano e hoje não cometeria um burrada dessa. Os assuntos aqui colocados já foram altamente debatidos com psicóloga, psiquiatra e família, e já tive duas tentavas de suicídio, que, penso eu, foram apenas meios de chamar a atenção.

De qualquer forma, se o assunto lhe interessa, gostaria de um texto para abrir uma discussão sobre essas diferenças de pensamento e o que leva uma pessoa a cometer atitudes como suicídio e não um resposta em particular para mim. Se não for pedir de mais, gosto muito de ler sobre psicologia e sobre a mente humana, se recomendar alguma leitura ficarei muito agradecido.

Atenciosamente, T.

Sabe, meu caro T, mesmo que nos mostremos distraídos, buscamos algo mais que mulheres, amigos, trabalho e família. Os que alcançaram essas condições básicas anseiam por mais.

Existe um estudioso da psicologia chamado Abraham Maslow que fala sobre uma escala de necessidades humanas. Esta que eu incluí acima. Ela indica que depois de superadas as fases de sobrevivência e pertencimento o ser humano anseia um significado mais profundo na vida, um sentido que dê um norte significativo, que o distingua dos demais, daqueles simplesmente querem o pão de cada dia.

Se você já tem as condições básicas atendidas deve querer mais do que isso. Mas em alguma medida todos têm esse mesmo anseio, ainda que não o saibam.

Por que viver?

“Por que não escolher você mesmo seu horário e local de morte? Por que este é um tabu tão grande para a sociedade?”

Podemos escolher o local e o horário sim, mas por quais motivações? Queremos estar vivos, mas não a qualquer custo e sim com brilho nos olhos, energia e possibilidade de não passar em vão.

Certa vez recebi um pedido de um jovem prestes a morrer. Ele pediu que eu falasse sobre a vida, e em essência o que eu disse a ele foi: morra o mais vivo que puder.

Quando me falam de suicídio eu gosto de contar a história de uma lagarta que chamava Meg e estava muito infeliz no galho em que vivia. Dizia ver tudo seco, sem vida, tedioso e previsível. No entanto, percebeu que se jogar daquele galho seria inútil, afinal a altura não era suficiente. Subiu no galho de cima e chegou na mesma conclusão até atingir um galho que parecia razoável, mas notou que as folhas dali eram mais verdes e resolveu saborear. Para sua surpresa o gosto era diferente lá de baixo e suspeitou que nos galhos de cima talvez o gosto fosse ainda melhor.

Atingindo quase o topo da árvore percebeu que estava pronta para o salto mortal.

Mas uma inquietação enorme já tomava conta do seu corpo e a única coisa que foi possível foi aguardar paradinha até que a agitação parasse. Nessa hora se deu conta que seu corpo estava diferente e duas asas surgiram em suas costas a tal ponto que viu outras tantas árvores que poderia conhecer. Tirar a própria vida já não fazia sentido para ela naquele momento.

Então suba.

Perspectiva limitadora do ganha ou perde

O ponto dessa história é que todos nós, assim como a lagarta Meg, enxergamos o mundo que construímos. Quando afirmamos que já tentamos tudo para mudar, provavelmente tentamos “apenas” tudo o que poderia ser tentado no nosso mundo restrito. A ideia de suicídio é uma dessas tentativas, e ela nasce de uma visão bem típica atualmente. A do tudo ou nada.

Nessa visão binária, um homem que perde seus bens não tem valor. Alguém que não tem sucesso, não recebe atenção ou se perdeu sua mulher para o Ricardão cai em descrédito. Não criamos um mundo para os desafortunados. E esses, quando se veem nessa situação por mais tempo do que gostariam, acreditam que nada mais resta a eles. Nada.

Em alguns casos a ideia de suicídio é um mimo, como aquele menino desacostumado a perder e que leva a bola embora só porque não foi escalado para atacante. Se não é para vencer, o jogo acaba. Ele é incapaz de seguir em frente quando vê sua honra manchada.

É só notar os motivos de suicídio mais comuns: dívidas, perda de status e mulher. O suicídio parte de um tipo de identificação doentia em que a máscara social estava grudada à face. Quando a pompa do milionário caiu, a pessoa como um todo foi junto.

O consolo para o suicida

É de visão ampla que o pré-suicida carece, e não um de consolo barato que só alimente seu narcisismo.

Vejo pessoas tentando consolar depressivos afirmando que eles são legais, lindos e interessantes, e normalmente acabam recebendo de volta um monte réplicas autoacusatórias. Essas respostas desconsoladas sobre si mesmas costumam estar próximas da realidade, pois quando se acusa de egoísta, chata e resmungona, de fato é. Oferecer contrapontos que levantem o ego não funciona, apenas atola ainda mais o sujeito na areia movediça em que está afundando.

É na saída do autocentramento que mora a esperança, pois a falta de ânimo que faz perceber o mundo sem cor revela um olhar desinteressado.

Bastaria que uma nova paixão acontecesse para desmentir essa realidade acinzentada que o desiludido percebia. O suicida potencial precisa perceber que o mundo para o qual quer morrer pertence só àquela identidade na qual se fixou. Quando estoura a bolha que vivia, a maldição na qual estava possuído desaparece.

O que o suicida quer realmente matar?

A morte que o suicida anseia é a de uma realidade específica, e não de si mesmo. Mesmo aqueles que se sentem cansados das próprias ações estão cansados… do seu cansaço. Se pudessem, desapareceriam para si mesmos por um tempo e depois retornariam para ver se o cansaço passou.

É a dor de viver que querem aniquilar, mas eles não entendem que a dor não é um estado físico (apesar de ser sentida por muitos assim), mas uma concepção equivocada do mundo. O problema do suicida é que ele vê a realidade como algo concreto e não como algo que ele constrói.

Esse conceito é o de co-emergência, ou seja, nós co-criamos a realidade que habitamos; ela não existe em si. A mesma festa pode ser uma celebração para um e uma catástrofe psicodélica para outro, a paisagem mental de cada um se sobrepõe e cria o clima da festa. O óculos que você utiliza é que define a experiência que vai absorver.

As visões de mundo das pessoas se distinguem radicalmente. Para a pessoa bélica tudo é uma guerra, para a carola é tudo preto-no-branco/certo-errado, para o visionário as oportunidades estão sempre no meio do caminho e para o iluminado todos cohabitamos uma teia viva de compaixão obscurecida por enganos mentais.

A noção de felicidade que alimentamos é muito pobre e no mais das vezes é a própria causa da ideia suicida. Se ela está trancafiada numa certa posição específica, como beleza, juventude, vigor físico, poder ou dinheiro, existe um alto potencial de que o envelhecimento, a doença e os altos e baixos do mercado de ações afetem sua sensação de pertencimento a esse mundo.

Histeria

“Mesmo tendo tudo, nada me satisfaz. Nem as mulheres, nem os amigos, muitos menos trabalho e família, sempre falta algo a mais, nunca é suficiente.

Seria pela facilidade como obtenho as coisas? Bom, não sei, o que sei é que sempre consigo as coisas com muita facilidade, com o mínimo ou nenhum tipo de esforço.”

O problema não é conseguir as coisas com facilidade, mas não estar engajado com essas conquistas e como isso tem um impacto na sua vida e na dos demais.

A sensação de que nada é suficiente pode ser resultado de um tipo silencioso de tédio arrogante onde o insatisfeito crônico se vê acima do bem e do mal (mesmo que não esteja). Como se guardasse uma sensação de “eu já sabia” que cria a sensação de uma realidade insossa, visível no seu comentário: “e mesmo que viva por mais 20, 40, 60, 80 anos, pouco verei”.

Parece uma apatia desconectada de tudo, uma frieza narcísica que não se permite impressionar efetivamente por nada. Ela é insatisfeita porque está sempre esperando uma satisfação externa para agradar o rei meio bêbado e entediado que grita no inconsciente: “ei, alguém aí fora não vai me alegrar? Ninguém quer dançar para mim?”

É uma forma de histeria, ou seja, a incapacidade de sentir o que está sentindo porque está idealizando a realidade.

Chamar a atenção

“Já tive duas tentavas de suicídio que, penso eu, foram apenas meio de chamar a atenção.”

Percebe o rei gritando? “Sou importante, quem vai sentir minha falta?”

Acho curioso analisar as cartas deixadas por suicidas, pois em grande parte eles acusam a si mesmos ou aos outros como justificativa para a despedida fatal. Tanto num caso como o outro o ponto em comum é um EU que se sente ofendido, humilhado, rebaixado e preso em medo, raiva, tristeza e vítima de um mundo cruel.

Se é nossa lente que enxerga o mundo tal como ele é, talvez a radicalidade esteja impregnada no olhar restrito de quem se despede. A pessoa quer chamar atenção para o fato de que ninguém valoriza e reafirma sua presença no mundo com compaixão, no entanto, ela própria desestimula com sua autopiedade um espaço no mundo onde a compaixão exista.

Deixo claro que entendo as motivações que quem se suicida para se livrar da dor e da angústia, mas o que posso perceber com alguma clareza é que definitivamente a pessoa ainda não explorou todas as possibilidades. Eu próprio quando me vi com ideias em torno do suicídio deixei minha curiosidade falar mais alto e pensei: “só por teimosia ficarei por aqui só para ver como eu filhadaputamente vou sair dessa”.

Foram a curiosidade e a generosidade que diluíram a ideia de me matar. A realidade é muitas vezes trabalhosa, mas se levarmos nosso amargor frente a uma realidade dura até às alturas teremos motivo para muita confusão.

Num momento de dúvida prefiro me dispor a estender a mão ao invés de exigir que os outros façam isso por mim e recorrer a uma mente coletiva que está além de minhas próprias possibilidades…

* * *

“Id” é a nova coluna do PdH, na qual o psicólogo Fred Mattos responde às dúvidas dos leitores.

A ideia é que possamos nos comunicar a partir de uma dimensão livre, de ferocidade saudável. Não enrole ou justifique desnecessariamente, apenas relate sua questão da forma mais honesta possível.

Isso não é terapia (que deve ser buscada em situações mais delicadas), mas um apoio, um incentivo, um caminho, uma provocação, um aconselhamento, uma proposta. Não espere precisão cirúrgica e não me condene por generalizações, pois sua vida não pode ser resumida em algumas linhas, e minha resposta não abrangerá tudo.

Envie suas perguntas para id@papodehomem.com.br

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